Terça-feira, Julho 08, 2008
Se numa noite de Inverno um leitor imaginasse...
“Hoje lembrei-me da minha infância. Como era feliz! Olhando para as crianças de hoje, sei o quão afortunada fui. Não havia dvd’s, cd’s ou playstations, menos ainda internet. Mas havia muitos livros, muitas histórias, passeios de bicicleta, corridas, brincadeiras de faz-de-conta... e tudo partia de nós, da nossa imaginação. Havia um sem número de estímulos à nossa criatividade e fantasia. As imagens que tínhamos das histórias que nos contavam eram nossas, não eram as imagens repetidas do filme que hoje ‘colam’ nas cabeças das crianças. A forma como percepcionavamos as personagens dependia inteiramente de nós e, à medida que avançavamos na idade, essa ideia transformava-se com aquilo que se ia adicionando da nossa experiência pessoal. No final, o produto era único e exclusivamente nosso, ainda que partindo do texto de um Autor.”
.........
Acordara não soubera bem que horas eram. Não importava, também. Estava só. Sozinha no quarto, sozinha em casa. Não sabia que horas eram agora, neste momento. Oito? Nove? Não importava. As dores continuavam fortes e não se conseguia movimentar. Sentia-se como Gregor Samsa. Apenas não se metamorfoseara numa barata.
Kafka. Sim, era um indivíduo com imaginação. De onde estava conseguia ver A Metamorfose na estante e recordava-se da história que lera anos antes pela primeira vez. Ficara impressionada com a crueldade daquelas pessoas que não se recordava mais quem eram, mas que sabia serem próximas de Gregor e que lhe haviam atirado a maçã que mais tarde apodreceria na sua carapaça, matando-o. Era muito jovem quando lera o livro e, talvez por isso, ficara muito impressionada. Na sua mente conseguira visualizar toda a cena e ao imaginá-la ficara tocada pela insensibilidade dos intervenientes. Fora a segunda vez que chorara ao ler um livro.
Agitava-se na cama, tentando auto-inflingir o mínimo de dor na coluna, mas sendo mal-sucedida. As dores persistiam e anunciavam-lhe um período longo de ‘repouso’, como lhe chamavam. Agitava-se porque procurava com os olhos a lombada branca d’O Velho e o Mar, o primeiro livro de Hemingway que lera e que fora também aquele com que estreara as suas ‘lágrimas literárias’. Toda a luta entre peixe e homem fora recriada na sua imaginação. E os momentos que enluteceram o seu coração foram aqueles em que conseguiu ver apenas as espinhas do peixe, depois de ter sido despedaçado algures no percurso entre o alto mar e a pequena aldeia do pescador. As lágrimas sulcaram a sua face como se de fontes se tratassem. Não conseguira parar de chorar durante quase uma hora. Quando contara o sucedido, impressionados pela sua capacidade de imaginação, riram-se de si, recordando-a de que era apenas ficção e que não tinha, de facto, acontecido. Sentira-se um pouco envergonhada e zangada ao mesmo tempo. Que mal tinha chorar ao ler um livro? Porque é que só se pode chorar quando se VÊ um filme? Só porque tem imagens?
Agora, pensando sobre isso – tinha tempo de sobra para pensar, imobilizada como estava –, sentia-se orgulhosa de si mesma. Afinal, não precisava que lhe enquadrassem histórias visualmente. Aliás, sentia-se ainda mais orgulhosa, porque os cenários das suas histórias provinham apenas da sua mente. Ninguém mais conseguiria reproduzir tais cenários. Na sua mente, o filme era dirigido apenas por si. Pegava no ‘guião’ e realizava a sua própria longa-metragem. E era - e é! – uma experiência muito mais rica, porque conseguia reproduzir, inclusivamente, os próprios sentimentos. As reacções, os traços faciais de uma mulher cheia de raiva, tudo podia recriar na sua imaginação.
“O que ócio faz”, dizia para si. Ria-se e lamentava ao mesmo tempo o seu estado de inválida temporária, que não lhe permitia alcançar a estante de livros. Tão longe e tão perto, pensava. Mas não fazia mal. Os títulos nas lombadas evocavam cenários plenos de emoção e não só. Lembravam-na de determinados períodos da sua vida. Os momentos em que lera os livros. Em que, pela primeira vez, os abrira e se deixara levar. Era assim que começava sempre. Primeiro analizava o livro do exterior. Mas, logo a partir do momento em que iniciava a leitura deixava-se guiar pelas palavras, pelo seu significado e a sua imaginação embalava-a como uma criança no berço, deixando-a num estado de adormecimento. Quando subitamente alguém a chamava, despertava de um estado semi-hipnótico, necessitando de alguns instantes para se localizar.
Continuavam as manobras para se movimentar na estreita cama. Um olhar mais atento e conseguira vislumbrar uma pequena lombada verde. O Estrangeiro. Camus.
Camus fora uma descoberta recente. Bom, mas também não se espera que uma criança aos 10 anos, quando deve ler a Alice no País das Maravilhas, comece logo a ler Albert Camus!, dizia a si mesma.
Camus surgira num momento feliz da sua vida. E talvez por esse motivo, tivesse sentido com tanto realismo a indiferença e a ausência de compreensão. Como se fora ela própria estrangeira da sua realidade e de si própria. Chorara, chorara tanto por Mersault, esse homem julgado porque não mostrara qualquer emoção no funeral de sua mãe.
Não soubera bem a extensão do impacto que a leitura do livro tivera sobre si. Mas sentia que a verdade sobre a Humanidade e a sua indiferença lhe haviam sido reveladas. Tanto mais após a leitura d’A Queda, também de Camus, que mais se assemelhava a uma terapia em Amesterdão. Nunca estivera na Holanda, mas as descrições desse narrador, que se auto-intitula ‘juiz penitente’, e caminha com o seu interlocutor ao longo dos canais da cidade, mostraram-lhe a morfologia da capital holandesa. E talvez por isso, um dia, quando finalmente viajar até aos Países Baixos, se sinta desiludida, porque não será a ‘sua’ Amesterdão, a cidade da ‘sua’ Queda.
Lembrando mais uma vez – oh, sim, que mais podia fazer senão recordar? -, recordava-se que já sofrera as consequências do cada vez mais actual conflito ‘livro versus filme’. A primeira vez que sucedera fora com The End of the Affair, livro da autoria de Graham Greene. (Em português, O Fim da Aventura). Iniciara a leitura do livro e a certo ponto descobrira que existia um filme inspirado na obra literária. Decidiu vê-lo, mas foi esse o seu grande ‘pecado’. Como o filme não era somente inspirado, mas um ‘fiel’ mau retrato do enredo literário, acabara confusa e desiludida, porque o que imaginara até então, à sua conta, fora esmagado pelas imagens e pelos actores que interpretavam as personagens principais. Fora uma das maiores desilusões que sofrera até ao momento. Os actores pareciam encarnar atitudes desproporcionais àquilo que se esperava da personagem literária. Não, o filme parecia tratar-se de uma caricatura mal feita das personagens, pelo exagero das suas acções. Ficara desiludida e a partir desse momento nunca mais lera um livro e vira um filme com título igual.
Entretanto, o cansaço e as dores associados ao olhar perdido entre as prateleiras e as fileiras de livros e as suas deambulações sobre cenários que existem somente em palavras, fizeram-na adormecer.
.........
“Não sabe de onde vem, nem sabe para onde vai. Apenas consegue vislumbrar vastas paisagens de neve e um rio gelado. Visualiza uma rena e o homem louro de tez queimada do sol do Ártico. Um homem maciço. O homem luta vigorosamente com a rena, porque, na verdade, luta pela sua vida. A rena arrasta o homem para o rio gelado. Ela grita. Grita, numa tentativa desesperada para que alguém tome conhecicmento do sucedido.”O homem vai morrer! Ajudem!”, grita. Grita, grita, mas rapidamente a sua voz começa distorcer-se até se transformar num som agudo interminável.”
.........
Subitamente, o telefone toca.
Acorda.
Atende.
“Está?”
Terça-feira, Junho 10, 2008
depois do adeus - série 2
Em Frankfurt, sentimos o céu esmagar-nos, descendo sobre as nossas cabeças, pressionando-nos contra o chão.
Era o final do mês de Julho, início de Agosto, não chovia, mas o céu erguia-se cinzento sobre o topo dos arranha-céus, bem no centro financeiro germânico e europeu. Até podia ser que se tratasse de um mês atípico na cidade, mas, ainda assim, era perceptível o seu dia-a-dia. Atravessando as largas avenidas que abriam caminho entre os edifícios altos, alguns símbolos germânicos pareciam fazer sentido, como se de um prolongamento da cidade se tratassem: o tom escuro dos fatos Hugo Boss, os Mercedes e os BMW pretos e cor de prata povoavam a cinzenta urbe, com a qual combinavam. Era uma cidade ventosa, fria, onde o céu era um mero prolongamento do cinzento dos arranha-céus do monumental edifício do Deutsche Bank.
Os arranha-céus roçavam os céus forrados de nuvens escuras. O vento varria as avenidas, anunciando a tempestade, quando se sentiram algumas gotas cair.
Ela não sabia bem porque ali estava. ‘Naquela direcção?’. ‘Sim, vamos’, responde ele naqueles diálogos que mais pareciam monólogos. Não sabia que mais lhe havia de dizer. Mas talvez ele também não estivesse interessado. Sim, talvez isso.
Ela interrogava-se sobre porque ali estava. ‘Pelo menos aqui já não chove’, pensava. ‘Pelo menos já não está tanto calor’, dizia para dentro, como que procurando um qualquer motivo de consolação que a impedisse de sentir o peso que carregava dentro de si.
‘Como tudo ficou assim?’, questionava-se. Como deixou que se chegasse àquele ponto? Como perdeu o amor-próprio às custas de alguém que não a amara nunca? ‘Um capricho’, pensaria anos mais tarde. ‘Foi um capricho pelo qual me deixei levar’. A culpa nunca teria sido dele, porque ela é que o deixara levar a sua dignidade. Por isso sentia o peso da culpa. Da culpa e da vergonha. Sempre soubera que a dignidade era o que tinha de mais valioso e deixara-o arrasá-la, porque julgava que o amava.
A situação era ridícula e ela sabia-o. Perdera tudo em poucas horas. Porém, consolava-a saber que a culpa era de ambos. Sabia também que quem ama, perdoa. E ele não havia perdoado o seu exagero, o momento em que perdera a calma e se vira esvaziada de toda a sua racionalidade.
Era complicado. Fora tudo muito confuso. Houvera muito amor e alguma raiva à mistura. Mas como sempre, não adiantava pensar nisso. ‘Afinal, já passou’, dizia, procurando convercer-se. Talvez nunca compreenda o que aconteceu naquela cidade cinzenta, quando ambos passeavam de rostos pesados. Não eram amantes, porque o amor se desvanecera. Não eram namorados, porque a chama se apagara, a química desaparecera. Resta agora o grande consolo para ambos, de que ninguém agiu mal, e que os dois se magoaram – mas era para assim ser. Era suposto ela sofrer. E era suposto ele crescer.
Era o final do mês de Julho, início de Agosto, não chovia, mas o céu erguia-se cinzento sobre o topo dos arranha-céus, bem no centro financeiro germânico e europeu. Até podia ser que se tratasse de um mês atípico na cidade, mas, ainda assim, era perceptível o seu dia-a-dia. Atravessando as largas avenidas que abriam caminho entre os edifícios altos, alguns símbolos germânicos pareciam fazer sentido, como se de um prolongamento da cidade se tratassem: o tom escuro dos fatos Hugo Boss, os Mercedes e os BMW pretos e cor de prata povoavam a cinzenta urbe, com a qual combinavam. Era uma cidade ventosa, fria, onde o céu era um mero prolongamento do cinzento dos arranha-céus do monumental edifício do Deutsche Bank.
Os arranha-céus roçavam os céus forrados de nuvens escuras. O vento varria as avenidas, anunciando a tempestade, quando se sentiram algumas gotas cair.
Ela não sabia bem porque ali estava. ‘Naquela direcção?’. ‘Sim, vamos’, responde ele naqueles diálogos que mais pareciam monólogos. Não sabia que mais lhe havia de dizer. Mas talvez ele também não estivesse interessado. Sim, talvez isso.
Ela interrogava-se sobre porque ali estava. ‘Pelo menos aqui já não chove’, pensava. ‘Pelo menos já não está tanto calor’, dizia para dentro, como que procurando um qualquer motivo de consolação que a impedisse de sentir o peso que carregava dentro de si.
‘Como tudo ficou assim?’, questionava-se. Como deixou que se chegasse àquele ponto? Como perdeu o amor-próprio às custas de alguém que não a amara nunca? ‘Um capricho’, pensaria anos mais tarde. ‘Foi um capricho pelo qual me deixei levar’. A culpa nunca teria sido dele, porque ela é que o deixara levar a sua dignidade. Por isso sentia o peso da culpa. Da culpa e da vergonha. Sempre soubera que a dignidade era o que tinha de mais valioso e deixara-o arrasá-la, porque julgava que o amava.
A situação era ridícula e ela sabia-o. Perdera tudo em poucas horas. Porém, consolava-a saber que a culpa era de ambos. Sabia também que quem ama, perdoa. E ele não havia perdoado o seu exagero, o momento em que perdera a calma e se vira esvaziada de toda a sua racionalidade.
Era complicado. Fora tudo muito confuso. Houvera muito amor e alguma raiva à mistura. Mas como sempre, não adiantava pensar nisso. ‘Afinal, já passou’, dizia, procurando convercer-se. Talvez nunca compreenda o que aconteceu naquela cidade cinzenta, quando ambos passeavam de rostos pesados. Não eram amantes, porque o amor se desvanecera. Não eram namorados, porque a chama se apagara, a química desaparecera. Resta agora o grande consolo para ambos, de que ninguém agiu mal, e que os dois se magoaram – mas era para assim ser. Era suposto ela sofrer. E era suposto ele crescer.
Domingo, Maio 25, 2008
depois do adeus - série 1
"Nunca lhe disse nada. Nunca retribui os ‘amo-te’, os ‘gosto de ti’, os ‘quero estar contigo'. Porque sempre achei melhor não o fazer. Não tinha certezas. E porquê transformar incertezas em verdades absolutas por transmissão? Eu saberia sempre da dúvida mas ele toma-la-ia como certeza, como verdade indiscutível. Porém, as suas acções foram sempre absolutas e indiscutíveis. Como os seus gestos. Como o seu olhar e as suas palavras. Enfim, não adianta teorizar. Não preciso disso. E não será isso que farei. Como já fiz antes. Foi, aconteceu e foi bonito. E isso é suficiente. Basta-me. Depois de tudo o que aconteceu, isso é que é importante e é isso que fica. O que sei e do que tenho certeza, é que senti a sua falta e que era com ele que queria estar. Foi o que senti. E chega."
(Recordar-me-ei sempre daquela noite, na ponte. Da noite em que me pareceu que iria sentir falta de Praga, porque Praga me parecia ser a cidade mais bela do mundo. Mas Praga continuava a ser a mesma. A perspectiva é que me soava tão bem. Mentia sobre o futuro regresso, que sabia ser impossível e ele dizia que eu podia voltar e encontrar alguém com quem ficar. Era ele que falava em seu nome, indagando o que pensaria eu? Mas isso, que interessa?)
(Recordar-me-ei sempre daquela noite, na ponte. Da noite em que me pareceu que iria sentir falta de Praga, porque Praga me parecia ser a cidade mais bela do mundo. Mas Praga continuava a ser a mesma. A perspectiva é que me soava tão bem. Mentia sobre o futuro regresso, que sabia ser impossível e ele dizia que eu podia voltar e encontrar alguém com quem ficar. Era ele que falava em seu nome, indagando o que pensaria eu? Mas isso, que interessa?)
Quarta-feira, Março 19, 2008
un very stylish fille goes on vacance
porque o melhor da juventude já se está ir, chegou o momento das remodelações. por momentos encerrado para obras, "un very stylish fille" "sara tornata".
a bientôt!
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